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SÃO LEOPOLDO muro por ERICK CITRON

Valorizar as diferenças

Giovani Ragazzon

Solution Developer

Na década de 90, Giovani Ragazzon – que na época era ainda um adolescente – estava no carro com seu irmão e alguns amigos a caminho do funeral do pai de um dos meninos. Giovani achou estranho que todos estivessem tão tristes e calados. Para tentar animá-los um pouco, ele começou a contar piadas. Seu irmão, de tão envergonhado, pediu que ele parasse e disse:

Cara, qual o teu problema? Você não tá vendo como todo mundo tá triste?

Giovani era conhecido por todos como aquele guri meio estranho e “sem noção”, mas que tinha um bom coração. Foi isso o que ouviu dizerem sobre ele quando ele pulou da janela do segundo andar ao invés de sair pela porta de entrada, ou quando quebrou o braço ao saltar de um balanço em movimento. Era assim que sua família e seus colegas o descreviam, pois àquela época ainda não sabiam que esse tipo de comportamento era, na verdade, típico do espectro autista com o qual seria diagnosticado décadas mais tarde.

De tanto ouvir as pessoas dizendo que era diferente, Giovani acabou por acreditar nisso. Todo mundo dava seu comportamento por tão natural que ele acabou internalizando esse seu lado como sendo parte de sua personalidade. Já adulto, mas ainda antes do diagnóstico, teve de enfrentar uma série de desafios com Juliana, sua esposa, devido à maneira como ele lidava com as pessoas. Quando eles voltavam para casa, depois de ter visitado amigos, ele sempre perguntava se tudo estava bem e acreditava quando ela dizia que sim, embora para os demais estivesse claro que havia algo que não ia bem entre eles. Isso é porque Giovani tem uma visão objetiva das coisas. Se lhe pedem para fazer algo, ele vai fazer exatamente o que foi pedido, e se algo mais ficou implícito ou subentendido e não foi claramente articulado, ele não vai se dar conta do que seria. É por esse motivo que ele criou “mecanismos de atuação” para simular as reações que seriam esperadas pelos demais.

Agora, aos 39, ele está ciente de suas limitações e de seus talentos: a capacidade com números e raciocínio lógico que desenvolveu durante sua infância, por exemplo, serve agora de base para seu trabalho como programador de software.

Sou valorizado pelas coisas que sei fazer bem. Todos entendem que diferenças existem e que nós podemos usá-las em nosso favor.

Essa é a mensagem de aceitação e valorização que ele tenta passar a seus filhos Josué (9) e Eliseu (7). Embora não tenha ingressado na SAP por meio do programa Autismo no Trabalho (Autism at Work), Giovani se orgulha muito do trabalho desempenhado pela empresa no que diz respeito ao autismo. “A SAP está fazendo coisas maravilhosas. Nós já contratamos mais de dez pessoas com espectro autista na América Latina. E tudo isso em menos de dezoito meses. Nenhuma outra empresa alcançou um resultado desses. Eu espero que essa boa prática se difunda pela comunidade”.

Ao descobrir que ele também se enquadrava no espectro autista – e, mais especificamente, dentro da síndrome de Asperger –, Giovani conseguiu entender melhor seu próprio comportamento e aprender a lidar com situações cotidianas. O diagnóstico do filho contribuiu para que ele se tornasse um pai melhor. “

Hoje, o Josué tem um leve autismo, que antes costumava ser mais sério. Essa melhora só foi possível graças à minha maravilhosa esposa.

Desde o diagnóstico, Juliana tem levado Josué a diferentes profissionais, desde terapeutas ocupacionais até fonoaudiólogos.

Os resultados são visíveis. No passado, houve ocasiões em que Josué simplesmente não falava. Hoje em dia, até em peças da escola ele participa. Embora Giovani tenha se emocionado muito em vê-lo no palco, a vitória mais importante até agora foi quando o filho aprendeu a atar os cadarços sozinho. Desenvolver a coordenação motora pode ser um desafio para pessoas dentro do espectro autista – o próprio Giovani ainda passa por dificuldades, por exemplo, quando tenta usar um par de tesouras ou escrever à mão.

"Mesmo antes do diagnóstico, nós já sabíamos acolher e valorizar as diferenças, um sentimento que agora cresceu ainda mais. O maior obstáculo que a nossa missão enfrenta é a falta de conhecimento por parte da sociedade. Quando uma pessoa dentro do espectro autista se sente insegura, o que pode ocorrer em situações de muito estresse ou de intenso estímulo visual ou auditivo, ela poderá se pôr a gritar, o que pode até ser inesperado, mas nunca deve ser confundido com agressividade. Nossos filhos são carinhosos, um reflexo do relacionamento que temos com eles. Sempre os encorajamos a mostrar suas emoções”, disse Giovani, que certa vez aguardou pacientemente na calçada até que uma das crises de Josué passasse.

Apesar do preconceito das pessoas, Giovani não está preocupado com o futuro de seus filhos. Recentemente, Eliseu, o caçula, foi diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), e o casal está agora avaliando a possibilidade de que também ele esteja dentro do espectro do autismo. O que eu mais desejo aos meus filhos é paz e felicidade, independentemente de qualquer fator externo.

Eles podem ser jogadores de futebol se quiserem, ou ir vender miçanga na praia. Desde que sejam seres humanos felizes e realizados, o que mais posso pedir?

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